quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Brancos de estimação e o racismo em pele de empatia:

Essa branca é amiga, podem confiar nela, criei com todo carinho lá em casa. 

Ela não morde.


Nós, negras da diáspora, fomos largadas para sobreviver num mundo cheio de contradições e de ódio. Nós somos ensinadas a ter gratidão, empatia e amor pelos nossos opressores. Afinal, se a gente fingir que não vê, ouve ou entende todo o ódio que eles nos lançam, como vamos sobreviver se o mundo é deles? A tática de sobrevivência acaba sendo sofrer quieta, relevar e diminuir a importância do ódio lançado contra nós, e assim vamos vivendo, até o dia em que chega até nós aquela pessoa branca que por algum motivo mágico não nos odeia. A vontade de ter um mundo onde a igualdade racial é a norma, é tão grande que nós acolhemos aquela pessoa branca como se ela fosse da família, ensinamos tudo sobre nós e nossos ancestrais na esperança de que ela vá, e leve pro mundo branco todas estas informações valiosas, e principalmente, que ela vá e ensine os outros brancos que nós somos pessoas tão interessantes quanto eles, tão complexos e tão legais quanto eles.  Esse processo de aproximação para troca de saberes, é com certeza uma maneira muito importante de destruir preconceitos. Eu sinceramente acredito que conhecer para não discriminar é parte de um processo importantíssimo que nos levará á igualdade racial, o problema é quando nós ficamos inebriadas com a esperança de estar plantando uma semente boa pra sociedade, e baixamos a guarda esquecendo que  *o pessoal é politico, e consequentemente deixamos de analisar nossas relações pessoais criando cobras que só estão aguardando a hora certa pra nos picar. 

O branco de estimação aproveita todas as regalias sociais de ser branco, e faz questão de continuar fazendo seu papel de colonizador quando usa uma das armas mais antigas, criadas por ele mesmo pra nos confundir, a mestiçagem. A mestiçagem combinada com um discurso de fluidez de raça, tem tentado com alguns sucessos transformar a negritude num sentimento, e não uma realidade material que elimina pessoas de pele não branca com traços negroides. Mesmo os livros de história mais antigos, mais mal escritos nós podemos ler sobre pessoas brancas se aproximando, se mostrando amistosas e em seguida saqueando tudo o que lhes interessa. Eles se aproximam, fazem seus estudos e em seguida nos abandonam. Eu tenho certeza absoluta que todas nós temos mais de um exemplo sobre essa relação que se torna cada dia mais complexa mas que ainda preserva mecanismo iniciais de conquista e controle étnico. Eu sei que estamos vivendo um momento onde a biologia esta sendo ignorada por convenção de algumas bandeiras, mas nós não podemos cair na armadilha cultural que vincula a negritude somente á vestimentas e outros traços culturais. Nós ainda somos violentadas e mortas por causa do nosso fenótipo, por causa da cor da nossa pele e da textura dos nossos cabelos. Se para uma parcela mínima de pessoas brancas, é possível flutuar para viver, pra nós flutuar é permitir que assinem nossa sentença de morte, outra vez. O professor Kabengele Munanga diz que o racismo no Brasil é uma obra de engenharia, e não é por acaso que essa obra arquitetada a tanto tempo ainda é importante pra manutenção de um mundo de exclusão. Nós não podemos nos perder nos discursos modernos que parecem ser libertadores, esses discursos parecem um sonho onde tem uma pessoa sorridente te estendendo as mãos e dizendo : " vem que será tudo lindo", mas se segurarmos essa mão, vamos retroceder. Nós estamos num momento fértil de conquistas, estamos nos levantando e conseguindo representações onde não conseguíamos desde a década de 70, e estamos avançando em espaços nunca antes habitados por negros, como as universidades e com isso não podemos aderir ao discurso dos opressores. A luta do povo negro tem cor, fenótipo e origem africana, não há como se desprender disso, se alguém com outro fenótipo e cor se sente negro, essa pessoa precisa de um bom psicologo.

Quem são os brancos de estimação? O que comem e onde vivem?


Branco de estimação é aquela pessoa de pele branca que convive com pessoas negras, e foi ensinada sobre tudo do mundo negro. Brancos de estimação podem ser nossos vizinhos, aquela amiga da faculdade ou do trabalho, a moça que grudou em você numa manifestação ou sua amiga de infância. Sabe aquele seu colega que comprou a biografia do Malcolm X  antes de você, leu e decorou tudinho, depois fica postando incansavelmente sobre o Malcolm e os acontecimentos da época, fica te perguntando coisas só pra você dizer " eu não sei" e então esse amigo branco te aconselhar: Você precisa saber mais sobre seu povo ( ou qualquer coisa do tipo), e se você reclama ele logo foge e diz: " ah mas fulano (outro amigo negro), não acha ruim ( logo, o problema é com você). Então, esse branco provavelmente é o branco de estimação de alguém, e cuidado esse tipo adora namorar pessoas negras, vivem tecendo elogios loucos pra poder namorar uma pessoa negra e então poder dizer " mas minha namorada é negra..."

Estas pessoas conhecem nossas músicas, nossas danças, nosso jeito de fazer as coisas, os penteados, as roupas e é comum dizerem que "queriam ser negras". Num primeiro momento pode ser bonito pensar: " Ah, que bonito! A fulana é branca, mas queria ser negra! O racismo finalmente esta diminuindo!". Cada dia que passa, a pessoa branca vai se informando, vai se enturmando e absorvendo tudo o que pode da nossa cultura, até o dia em que a partir da vivência dela, a pessoa vai acreditar que somos todos iguais, e que é exagero nosso falar sobre apropriação cultural no século XXI, e então, aquele branco que até então parecia nos compreender, respeitar e amar, resolve se auto declarar negro, naquela mesa de bar e todo mundo gargalha. Aquela pessoa branca que ouviu tudo o que você disse sobre sofrer por não ter o cabelo liso, começa a dizer que sofre muito porque seu cabelo enrolado não é aceito, e justifica esse sofrimento dizendo possuir uma alma negra. Essa pessoa branca te dá o ombro e ambas choram acreditando sofrer do mesmo mal, o racismo. A partir destas vivências pessoais, o branco de estimação vai ganhando força ideológica apoiada por alguns negros e começa a falar por negros, e se questionada sobre o lugar de fala, usará seu mentor negro pra dizer " ah, uma amiga negra que me disse isso", e assim o branco de estimação vai te usando pra conquistar os espaços negros. Nós negros lutamos, nos estamos a frente das nossas lutas, mas quando conseguimos algum espaço, logo uma pessoa branca cola em nós e já solta que tem um pé na cozinha. Porque será que está tão legal ser preto? Nós não devemos achar graça quando uma pessoa branca, mesmo que seja branco de estimação se diz negra porque permitir que esse discurso de auto identificação  étnica seja reproduzido com o nosso aval, é ainda resquício do racismo que impede o enfrentamento completo desse problema. Quando uma pessoa branca, tem nosso aval pra ficar brincando de negritude só porque não esta mais achando tão legal assim ser branca, nós estamos criando um branco de estimação e alimentando uma cobra a conta gotas com a história dos nossos ancestrais. Entendam, um dos passos importantes para a igualdade racial, é os opressores reconhecerem os crimes que cometem, reconhecerem seus privilégios étnicos e não criar uma falsa simetria performando negritude. Não se esqueçam, tentam durante séculos nos matar, nós como resistência, acreditamos que se fossemos mais parecidos com eles o racismo diminuiria, pra isso nós alisamos nossos cabelos, abandonamos as religiões de matrizes africanas e apagamos muitas coisas importantes pra nós. Nós fomos de coração aberto tentar entender o mundo deles, mesmo que isso custasse nossos cabelos queimados e nossa auto estima ferida. Eles riram de nós, disseram que nunca seriamos brancos, e continuaram nos tratando mal. Essa assimilação não foi saudável nem pra nós e nem pra eles. As diferenças são saudáveis e nós (todos nós) precisamos aprender a lidar com ela e não tentar nos tornar o outro para respeita-lo por completo. Por isso queridas, não criem brancos de estimação.


* O pessoal é politico, o que isso quer dizer? Clique e leia.
**Continuação do texto:  Nosso Juri é racional e não falha
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12 comentários:

  1. Você nos fala de descolonizarmo-nos de dentro para fora, sobre ficarmos atentas, vigilantes em não cair na tentação de construir alteridade, a falsa, como um engano, autoengano. Você explica muitas coisas: a Síndrome de Pelé (que criou muitos brancos de estimação "os negros são racistas com eles mesmos"); os ataques de irmãs e irmãos quando falamos abertamente sobre esta adaptação. Tudo o que disser aqui você já disse. Seus argumentos são base para estudos sobre auto-ódio e não aceitação.

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  2. Eu sou negra. Mas muitas pessoas debocham de mim por acharem ridícula tal afirmação, por conta da miscigenação e do racismo, onde só é negro quem tem a cor da pele mais escura e o tipo do crespo que não forma cacho, vou assim dizer, criaram um perfil. Qualquer diferença e é tachada de clarinha, branquinha, moreninha, mulatinha clara... Gastura de tudo isso . Seria eu uma branca de estimação inconsciente?
    Eu assumo que esse texto me fez refletir se é assim que sou vista por outros negros ou pelos bracos. Sinceramente fiquei confusa, pois sempre me sinto discriminada por N situações. Aonde me achar neste contexto? São rótulos e mais rótulos que só deslegitimam o protagonismo.
    Sempre fui consciente, mas estou em processo de estudo. Quero sim cada vez mais aprender. Como posso combarter isso?

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    1. Oi Anonima.

      Olha, não é possível uma pessoa bater o martelo e a partir daquele instante decidir a vida de alguém quando o assunto é cor da pele e cultura. Isso é injusto e desumano. Acontece que a miscigenação criou um problema para os negros brasileiros e esse problema impede nossa ascensão porque assim que conseguimos garantir alguns poucos direitos, os negros mais claros e até os não negros, ocupam esses lugares porque o racismo elimina as pessoas com traços negros mais marcados.

      No âmbito pessoal, eu só posso dizer pra que você continue estudando e buscando suas respostas. E questiono: Se você não é reconhecida como negra em nenhum espaço, é provável que não sofra racismo, então de onde vem a afirmação que você é negra? E porque é tão importante pra ti? Estas reflexões são com você, ninguém precisa saber as respostas. E no geral, eu digo que no Brasil quando não se é negro retinto, de pele escura, quem dita quem é ou não negro é a sociedade, porque são as pessoas negras as preteridas, excluídas, vitimas de gargalhadas e de chacotas muito mais profundas do que brincadeiras. Na pratica, no dia a dia, as pessoas sabem quem é negro e quem não é. Estes nomes "mulata, "morena" e derivados são armas usadas para confundir ainda mais sabe? Foram criadas para afastar cada vez mais as pessoas da negritude, existe um convite á negação da raça negra, mas hoje isso esta se refletindo de formas diferentes, muitas pessoas que pele clara, sentem menos o racismo e se sentem mais confortáveis em assumir a negritude, esquecendo-se que as pessoas de pele preta ainda sofrem muito, pra elas ainda é um peso bem grande e por isso é justo que as pessoas reconhecidas como negras, tanto por branco quanto por negros, tenham maior espaço e representação, porque elas sofrem mais.

      Você já percebeu que quando se abre espaço para negros, os negros aceitos são os mais claros e dentro do que eles chamam de "estilosos"?, pois é, existe uma negritude que é melhor aceita, a miscigenação faz isso, e por isso a vigilância e a denuncia precisa se manter firme.

      Se você me permite, eu indico dois documentários disponíveis no youtube: 1 - Café com leite, agua e azeite? e Cores e botas.

      Espero ter ajudado, fique bem.

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  3. Aline, eu não consegui desvencilhar a sua descrição sobre brancos de estimação e sua negritude em sequência com os homens que hoje se dizem mulheres...

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    1. Isso é porque ela se utilizou de um método materialista para analisar o racismo, e quando você se utiliza do materialismo pra analistar o machismo BUM, você percebe que mulheridade também não é sentimento.

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    2. Não acho pratico e nem produtivo ficarmos nos distraindo com outras lutas. Todas as lutas contra opressão são legitimas e cada uma tem suas características e devem ser analisadas a partir de seu histórico. Raça é uma construção social criada a partir de características específicas, assim como gênero e nesse ponto é possível conversar com os dois assuntos que não são fluídos mas podem ser de acordo com desconexão da realidade da maioria das pessoas. Fluidez de todas as coisas são possíveis a partir de alguns lugares privilegiados ( classe social, estudo, distanciamento da familia, etc). eu não escrevo para esse público e acho complicado mistura-los. Tomem cuidado com isso, nossa luta jé antirracista e já foi usada por muitos outros movimentos que passaram na nossa frente nos deixando exatamente no mesmo lugar. Não precisamos de distrações. Obrigada anônimos.

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  4. "A mestiçagem combinada com um discurso de fluidez de raça, tem tentado com alguns sucessos transformar a negritude num sentimento, e não uma realidade material que elimina pessoas de pele não branca com traços negroides."

    Engraçado, por que nesse caso faz todo sentido, mas quando feministas falam sobre fluidez de gênero não existir, sobre a realidade material de se nascer com uma vagina no patriarcado, aí preferem a visão liberal e não a visão materialista?

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    1. Oi Anonima, existem muitas feministas e muitas teorias feministas. Algumas feministas trabalham com a realidade material que é nascer mulher no mundo em que temos. Não sei a quem você esta se referindo quando diz "aí preferem".

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  5. Oi Aline!
    Participo de alguns grupos no Facebook, entre eles Marcha das Vadias POA (sou de Porto Alegre) e essa discussão sobre o racismo mal-disfarçado, sobre ser branco de estimação (não foi usada esta expressão, mas reconheci o discurso) tem estado muito presente lá e tem havido bastante discórdia, porque as brancas estão cegas para seus privilégios e as negras, com toda razão, não têm paciência para ficar desenhando.
    Gosto muito dos seus textos, eles trazem muita informação e solucionam os dilemas que nós, privilegiadas, temos, de uma forma bem simples. Lendo este texto do branco de estimação, associado àquele da insustentável leveza do ser, tive muito no que pensar. Já havia conseguido aceitar que sou privilegiada e opressora. Mas não havia ainda me dado conta de que o meu afeto poderia estar tão errado, que estava com uma postura apropriadora e no caminho de me tornar uma branca de estimação. Você provavelmente se pergunte, mas o que essa branca quer aqui rasgando seda num blog de luta negra, de resistência negra e feminista? Eu queria pedir a você permissão para divulgar seus textos na página Marcha das Vadias POA. Já divulguei um texto seu, o Insustentável Leveza do Ser, porque ele me ajudou a me reconhecer como a usurpadora que não quero ser. (eu divulguei sem pedir primeiro, o que foi um erro e peço desculpas. se você não autoriza, retirarei imediatamente do ar) Lendo você, outras brancas poderão entender melhor o quanto estão erradas, e talvez um pouco menos de discórdia no movimento feminista seja possível.
    Sei que sua intenção não é explicar nada para branca nenhuma, você está ocupada empoderando mulheres negras, no que está cheia de razão. Mas igual eu não consigo deixar de ser grata pelo seu texto, por tudo que estou aprendendo com você. Obrigada, Aline.

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    1. Olá

      Todos os textos do blog podem ser usados em páginas, comunidades, grupos de estudo e etc. Eu estou preocupada com as pretas, escrevo pensando em como posso me aproximar das minhas iguais e nos confortar de alguma forma. Brancos que querem entrar na luta antirracista que façam os mesmos com seus iguais.

      Desejo uma boa discussão pra vocês!
      E obrigada por divulgar o texto.

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  6. Olá.
    Li e estou realmente impressionado.
    Peço licença para citá-la: "Entendam, um dos passos importantes para a igualdade racial, é os opressores reconhecerem os crimes que cometem, reconhecerem seus privilégios étnicos e não criar uma falsa simetria performando negritude."

    Nós inventamos o racismo porque era conveniente para nós. Ideias racistas serviram para justificar a escravidão. Ideias racistas financiaram a Revolução Industrial. Mas Ideias racistas, por mais incômodo que seja admitir isso, é um atestado de fraqueza. Nenhum povo jamais o exerceu senão o meu. Nenhuma cultura realmente forte precisa de racismo - exemplo disso é a cultura japonesa, fortíssima, cujos valores principais são disciplina e hierarquia - não se fala em cor da pele.

    Nós inventamos o racismo, modificamos a história, e criamos um mundo à nossa imagem e semelhança - vil, bárbaro. Se o inventamos, agora teremos que desinventar.

    Sou a favor da preservação das raças.
    Resta saber quem vai inventar a paz entre elas. Talvez não seja minha gente; porque só valorizaríamos a paz se sentíssemos na carne a dor da exclusão.

    Saudações,
    Arn Krogdahl

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  7. Vivo no exterior e peço desculpa por nao saber o portugues como voces . . E ja' isso me faz sentir inferior . Quero dizer somente que o rascismo è cosa bem antiga e esiste em todo lugar e com todas as motivaçoes que o ser umano consegue inventar e nao è questao de cor . Se na Africa voces tivessem sido brancos os "negros" europeis ,asiaticos etc..teriam escravisado os " brancos" africanos . E' una pura questao de desejar a supremazia sobre um povo , uma parte de umanos um grupo pequeno ou grande que seja . E partindo dai è que vem toda a atrocidade de que a natureza umana è capaz. Nao tem nada a ver com a cor . E....que os japoneses nao sejam racistas para mim è uma novidade . Ali no Japao as diferenças sociais etc ...nao è por caso somente , uma das tantas formas em que o racismo se manifesta ?

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