segunda-feira, 12 de maio de 2014

A Insustentável Leveza do Ser


31 comentários:

  1. Olha, muito foda esse texto. Mas assim como a Melissa, não concordo com tudo que diz. A parte do cabelo, por exemplo, que me toca diretamente: quem disse que o meu processo de transição não foi um processo de libertação e de luta contra a ditadura da beleza que tanto nos oprime? E, inclusive, de assumir minhas raízes negras, sim? É clarooo que eu compreendo as diferentes dimensões das opressões e me compreendo enquanto detentora de privilégios. E, portanto, não pretendo em momento nenhum me colocar como protagonista numa luta que é das mulheres pretas, tampouco concordo com a apropriação desrespeitosa de elementos da cultura negra como simples adornos ou modinhas. Mas, por outro lado, não acho uma boa estratégia esse discurso ~também~ segregador, que beira a rivalidade. Não, não #somostodasiguais, mas somos companheiras, cadê a sororidade pô???

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    1. Oi Anna

      Muito obrigada pela visita. Eu não disse em momento nenhum que as lutas de libertação contra os padrões de belza não são importantes ou que são menos importantes. Eu disse que penteado blackpower e cabelo crespo são diferentes de ter cabelos enrolados e devem ter suas histórias respeitadas.

      È possivel encontrar em jornais de 1890 propagandas de alisamento de cabelo para cabelos crespos, se nós não alisamos, além de perder o emprego somos acusadas de nojentas, relaxadas, porcas e piolhentas. Se alisamos, somos acusadas de imitar brancos, fedorentas e ourtros inumeros apelidos. Muitas são as crianças com cabelo crespo que se queimaram com ferro tentando alisa-los, tomaram banho de candida e até foram queimadas por coleguinhas, tudo isso não porque estão fora do padrão de beleza mas porque nossas existências não são compatíveis com esse mundo. As mulheres negras de cabelos crespos foram e são consideradas inadequadas e agora depois de muito trabalho pra melhorar a auto estima, agora que estamos começando a nos reconhecer como bonitas e começamos a ver alguma coisa nossa que é boa, as pessoas querem se apropriar?

      Nesse sentido é desonesto. As mulheres com cabelo cacheado certamente tem suas histórias mas não há como comparar. As duas lutas, os dois processos merecem respeito, mas não representam a mesma coisa, por isso é injusta a apropriação desses modelos de beleza.
      Nesse sentido eu é que digo, cadê a sororidade poxa?

      Nós precisamos de todas vocês para nos ajudar e caminhar lado a lado, mas não precisamos ser oprimidas dentro dos espaços feministas.

      E, eu não entendi o que você disse sobre o meu discurso ser ~também~segredador beirando a rivalidade. Pode me explicar?

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    2. olá! licença para entrar na conversa?
      eu acho que existe uma coisa que o feminismo tem que entender é que as pautas das mulheres negras nem sempre são as mesmas das mulheres brancas. não acho que exista como entrarmos em algumas questões pensando que o feminismo é igual pra todo mundo pq não é!
      tem uma fala da Cidinha que pipocou no meu face book essa semana que diz o seguinte: "Quem quiser vir conosco, ao nosso lado que venha, mas à nossa frente estaremos sempre nós mesmos, qualquer branco que entenda isto será nosso parceiro". o que quer dizer que uma pessoa branca que passa na nossa frente querendo 'protagonizar' a luta negra, é como um homem querendo 'protagonizar' no feminismo.
      não acho que haja uma segregação no discurso. acho que há uma necessidade de as mulheres brancas (e demais pessoas) reverem seus privilégios e enxergarem isso que estamos dizendo. não há uma apropriação somente em relação à estética, mas tb à cultura (só olhar o tanto de branco na capoeira, no candomblé e umbanda, no samba...). só olhar que os brancos invadem diversos espaços inicialmente negros, usam como bem entendem, distorcem, mudam e depois largam fora. basta ver o modo como as coisas tipicamente negras somente são aceitas e consideradas boas depois que os brancos dão o aval. o samba já foi marginalizado, hoje é a estampa do Brasil. o funk é marginalizado, mas começa a descer o morro e entrar nas boates chiques da zona sul. não é querer segregar, mas dizer aos brancos que deixem em paz nossos símbolos de resistência e parem de ditar o que presta ou não e de querer tomar conta de tudo. é disso que se trata. os brancos podem apreciar, jogar capoeira, ser iniciados no candomblé, mas a forma como fazem não tem sido nem um pouco legal. tem terreiro que não tem um negro! tem grupo de samba que só tem branco! tem europeu mestre de capoeira!

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    3. Concordo com a Anna! Seu texto está ótimo, cheio de informações e visa pontos não vistos pela sociedade. Mas está um texto ofensivo. Não se tem respeito desrespeitando o outro. Se você quer que um branco te aceite, tem que fazer por merecer. Não é chamando para a briga que você irá ganhar a batalha. E racismo não é coisa só de branco. De branco pra negro. É de raça com raça, com outra raça, com a mesma raça. Racismo de índio, de negro, de branco, de ruivo, de amarelo, de pardo de tudo!
      Não, não estou dizendo para se subjugar aos brancos ou aos homens de outras raças como se fossem seus deuses: é que devemos ser iguais. Não é o que diz? Não há uma igualdade que não seja hipócrita, mas se você não se submete á menos e não tenta ser mais você estará no mesmo patamar, de igual pra igual. Acontece que nós, negros, temos que subir esse patamar. Mas com o mundo de hoje, o que temos que fazer é um arrudeio e chegar lá nem antes nem depois deles: mas na mesma hora.

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  2. Olá! Dan Klaxon seu texto completa e enfatiza o grande problema de sentir na pele o que é ser mulher negra. No feminismo so falam de Simone Beauvoir o que quase nada nos representa e, o mais vergonhosos é ver como os movimentos políticos partidários se apropriam do movimento negro através de marketing enganoso. Quem nunca foi preto, nem nunca soube o que é candomblé, derrepente se pinta do movimento ENEGRECER patrocinado pelo PT e assim vamos nos tirando direitos até mesmo dos nossos símbolos de luta!

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    1. Olá

      Cacimba, só uma colocação: O problema não é o governo PT. Todos os partidos sempre se apropriaram do discurso pró negro em teoria, na prática tudo sempre foi muito devagar. è preciso reconhecer que foi no governo PT que as cotas raciais nas universidades e concursos publicos foram aprovadas, junto com a lei 10.639 e o feriado nacional do dia 20 de novembro. O movimento negro teve muito trabalho para que estas ações afirmativas fossem aprovadas e só no governo PT houver abertura. Se foi oportunismo, pela primeira vez na história atual, isso nos favorece e muito. E falando em partido, comparando com o PSBD que tem uma sessão chamada " tucanafro", que deveria servir para cuidar de ações afirmativas para negros, mas na verdade tem pessoas brancas fantasiadas e dizendo que a luta contra o racismo não é do negro. Ah, antes que eu me esqueça, foi no governo PT também que a lei contra racismo, criada pelo governo Vargas, começou a ser melhor conhecida e usada. E há propagandas federal na TV falando sogre o genocídio da população negra.
      Não sou petista, e não costumo votar em "quem esta ganhando", só achei necessário arrendondar esta parte para que não ficassem lacunas que dessem a entender que o governo PT é pior do que os outros.

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  3. Nossa cara!... seu texto está sensacional!
    Me marcou principal/te os seguintes trechos: "Precisamos ter muito cuidados com estas pessoas auto declaradas negras, elas podem deixar tudo isso de lado quando elas quiserem,
    e nós? Se as coisas estão tão fluidas e a autodeclaração é a onda do momento, podemos nos auto declarar brancas e nos livrar do racismo? [...]" "Só quem tem os privilégios sociais é que pode navegar entre gêneros, entre cor, entre classe e não sofrer danos sociais e políticos com isso. Agora me diz porque quando o oprimido tenta fazer esse passeio também não é reconhecido? [...]"

    Vai ser mais um dos blogues q visitarei sempre que possível.

    Só tenho uma dica: se fosse possível aumentar o tamanho da fonte, seria ótimo (de todo modo dei zoom e facilitou).

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  4. Concordo com Dan qdo diz q.as pautas das mulheres negras nem sempre são as msms das mulheres brancas dentro do feminismo e que a isso não vem sendo dada a importância. devida dentro do próprio movimento. Concordo com a Aline qdo diz.q eh desonesto mulheres brancas se apropriarem de elementos.da cultura negra e liderarem movimentos sociais expropriando o espaço das mulheres negras. Mas, depois de ler seu texto, Aline, fiquei me perguntando: estou fazendo errado? Sou mulher branca, e qro q minha filha cresça numa realidade diferente da que cresci. Quando criança, fui ensinada a respeitar a todos e que todos somos iguais. Mas, na prática, isso não foi suficiente, pq cada vez que eu assistia uma novela.sabia que a atriz negra faria o papel.de empregada, sabia q os herois deveriam ser brancos, que mulher bonita era a mulher branca. Naquela época, mto mais que hoje, não se viam negros e negras como protagonistas em telenovelas, nos comerciais, nos livros escolares. Bem, eu cresci e constatei que não, não somos iguais. Que, na prática, brancos tem privilégios nessa sociedade. Mas quero fazer diferente com minha filha. Quero q ela cresça sabendo q existem heróis e heroínas negros e negras, que, diferente de mim, ela não veja uma negra na televisão e ache q a atriz fará papel de empregada! Por isso ela tem bonecas pretas, livros de historinhas q falam das princesas africanas, entre outras coisas... Quero q ela enxergue o mundo diferente do q eu enxergava qdo era criança. Estou me apropriando de algo q não eh meu? Estou fazendo errado? Tem outras maneiras de fazer? Abraços!

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  5. Olá Aline, gostei muito do seu texto e achei bastante provocador. Sou mulher, branca, pobre, e feminista.
    Sou do candomblé, e lá aprendi diversos valores como o respeito aos mais velhos e a nossa ancestralidade.
    Me senti diversas vezes provocada pelo seu texto, me senti incomodada, você me sacudiu da cadeira com suas palavras, então creio que o texto cumpriu o papel que ele deveria cumprir! Nunca vou querer me apropriar da voz de nenhuma mulher negra em nenhum espaço, mas não sei como devo fazer uma vez que eu sou candomblecista com todo o meu amor, e posso ver que existem pessoas tanto brancas quanto pretas que abandonam a religião ou não respeitam seus mais velhos, então eu me pergunto se no caso da religião está mesmo apenas a cor da pele sendo provocadora desse tipo de situação?
    Quanto ao uso de turbantes, eu também acho que é um adorno pertencente a cultura afro, afro-brasileira e diaspórica, mas eu curto usar turbante. Estaria eu me fantasiando de negra? ou apenas usando um acessório que eu considero bonito?
    Eu tenho plena consciência dos meus privilégios de mulher branca, como por exemplo quando uso turbante ou digo que sou do candomblé, não sou tão estigmatizada quanto uma mulher negra seria...
    Eu realmente fiquei sem saber o que pensar após ler o seu texto, adorei o seu blog, e estou lendo tudo!
    Obrigada e axé!

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  6. Seu texto foi a melhor coisa que eu li nos últimos tempos e chegou em hora boa.

    Cansei de ver e me deparar com situações das quais você fala. Profissionais - antropologos, ongueiros, biologos, etc - querendo se apropriar e imitar a comunidade com que trabalha; professores de yoga metidos a hindus nascidos na beira do Ganges e muitas pessoas brancas travestidas de negras(os) principalmente nos lugares que você cita. Pode crê.

    Por outro lado, na boa, um dia amiga me chamou a atenção para amigas (os) negras (os) que passaram a se vestir com roupas africanas, so ouvir som africano, e sei lá. Achei estranho também.

    Eu particularmente entendo os dois lados.

    O seu texto é muito legal. Aqui é real:

    "Para as mulheres brancas é perfeitamente possível ser negra a hora que elas quiserem e as pessoas se fazem de míopes para não contraria-las e receber as flechas apontadas para si. Assim como homens fazem seus papéis performáticos de mulheres e nós também não podemos criticar ou reclamar da invasão deles porque logo somos acusadas de vitimismo e de querer exclusividade. Percebem como é uma questão de privilégios? Só quem tem os privilégios sociais é que pode navegar entre gêneros, entre cor, entre classe e não sofrer danos sociais e políticos com isso. Agora me diz porque quando o oprimido tenta fazer esse passeio também não é reconhecido? "

    Eu faço esse passeio e sei muito bem o que você diz.

    Valeu ae.

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  7. Aline, muito massa seu texto. Me lembrou um livro que comecei a ler e acabei abandonando na correria. Vou recuperar essa leitura. Chamava "Aqui ninguém é branco" da Liv Sovik.. Conhece?

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  9. Texto excelente no formato, conteúdo e argumentação. Muito bom mesmo e estou recomendando às pessoas.

    Se me permite, chamaria atenção para a questão citada "O que me preocupa não é a Claudia Leite se fantasiando de negra pra enriquecer um pouco mais ás custas dos africanos e dos pretos baianos (...)”.

    Neste particular, deve-se levar em consideração que aquilo que a mídia “normalizou e condicionou” na sociedade brasileira e fora desta, como “carnaval da Bahia” ,significa um evento comercial no qual bem menos de 24% de pessoas que residem naquele estado participa. Mais de 75% dos participantes são pessoas de outros estados, em destaque de Brasília-Df, São Paulo e estados do sul.

    Em relação à questão Claudia Leite, esta pode ser resumida da seguinte maneira. A atriz resolveu estabelecer uma imitação ingênua e talvez até invejosa, em relação à outra artista também da Bahia. Todo o seu empresariado tem ficado extremamente incomodado com a intensidade de aparições não somente em shows, como mais ainda referente a publicidades, com cachês exorbitantes pagos a esta outra artista.

    Então o empresariado da Claudia, como estratégia de maketing, acharam que deveriam entrar no mercado norte americano e assim Claudia ganharia o mundo, deixando para trás a sua “rival”. Isto , na concepção deles.

    No raciocínio deste empresariado, para entrar neste mercado, Claudia Leite, se depararia com as questões raciais daquele país e com movimentos negros de lá que se perguntariam “uma branca brasileira aqui¿”.

    Então, como a branquitude brasilieira é um sistema que acredita poder se “transformar” naquilo que melhor lhe convém; criaram a versão nega\lora.
    Investiram muito alto, acreditando que, somente a partir desta caricaturização imbecil, conseguiriam (em pouco tempo) estar nas paradas de sucesso da sociedade norte americana, colocando Claudia em posição de destaque frente a sua rival, melhorando bastante sua conta bancária e também a de seus empresários.

    Portanto é sempre bom escrever acerca daquilo que se conhece, para evitar também, entre outros aspectos, aquela maneira “estranha” como (não é o seu caso, claro) boa parcela da sociedade brasiliense se dirige às pretas e pretos da Bahia. Simplesmente este não tem nomes e são todos chamados de baianos.
    Mas quando se trata de alguém branco nascido e criado na Bahia costuma ser chamada(o) pelo nome de registro civil.

    É obvio ter ficado evidente que a intenção de se referir aos “pretos baianos” não foi de subestimação aos primeiros ancestrais, primeiras atividades de movimentos negros, as primeiras rainhas africanas que chegaram naquele estado etc.
    Contudo, como costuma-se se ouvir por ai “ eu sou negro de São Paulo” ou “Sou negra do Rio Grande do Sul”. É sempre bom lembrar que certa feita a algumas décadas, alguém , muito famoso e possuidor de um reinado, afirmou, segundo consta na tese de doutorado de Isildinha Nogueira. “ Não sou negro, sou Pelé”.
    .


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  12. Gostei muito do post mesmo sem entendê-lo completamente. E o que eu não entendi (estou sendo sincera e não cínica) é se é racismo usar turbante? ou se você está falando das mulheres brancas que usam turbante e que agem como se isso fizesse delas negras, como se existisse igualdade ou que não tivessem que rever as situações de privilégio? e se isso vale por exemplo dreadlocks.

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  13. Olá Aline Dias seu texto me balançou bastante e fiquei sinceramente procurando meu lugar nessa história. Nós sabemos que quanto mais escura for o ton de pele , mais preconceito sofre.Eu sou negra " melhorada" uso esse termo porque sempre o ouvi e trago pra problematizar também. Meu cabelo é cacheado e o ton de pele mais clara, a famosa "morena" termos que em formação política fui abominando. Me sinto muitas vezes deslocada, porque não estou em nenhuma aparência que valide alguma coisa não sou branca, mas também não sou preta? Acho que pra um racista eu vou sempre ser periférica e preta e consequentemente tendenciosa a males pra sociedade... e de outro lado não sou legitimada pelas pretas porque dentro de uma escala de cor e cabelo não chego lá?? Fiquei muito confusa e embora as sociedades sofram o processo de hibridização ainda , por cuidado, defendemos alguns purismos.

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  14. Olá anonima.

    Não há defesa de purismo, aliás, é impossível dentro da miscigenação que sofremos falar sobre isso e tentar legitimar de alguma forma. O que eu disse é sobre lugares de fala. È desonesto uma pessoa, mesmo negra de pele clara, tentar se colocar num lugar de vivência histórica, social e cultural que não é o seu lugar. Será que a mesma coisa uma mulher que cresceu aprendendo que é negra da maneira mais dolorosa possível, porque tem todos os traços negróides e pele escura, e uma outra que aprendeu já adulta que é negra quando leu um texto ou quando problematizou sua cor num grupo ou a partir de uma discussão? As duas mulheres podem ser negras mas a trajetória diz muito sobre nossos limites. Sabemos que quanto mais preta, mais racismo sofre, então que seja feita justiça e não exista disputa de lugares de fala entre negras. Entender que a irmã negra de pele mais escura, cabelo mais crespo e nariz mais claro sofre muito mais do que negras passáveis socialmente é um ato de amor e não diminui ninguém, só faz com que a gente reconheça que o racismo nos dividiu de inúmeras maneiras, nos apaga de jeitos que muitas vezes demorados para entender, mas sem duvida nenhuma exclui e mata aqueles que estão mais próximos do fenótipo odiado.

    Muito obrigada por visitar o blog, espero que volte para ler esta resposta.

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  15. Olá Aline, seu texto é muito bom, bem escrito! Informação pura.

    Tenho uma dúvida, e como disse Érica estou "sendo sincera e não cínica"...sou branca e uso duas camisetas de grandes nomes do Movimento Negro, uma é do Mandela e a outra do Marthin Luther King...isso seria apropriação cultural? Não enxergava dessa maneira, pois vejo eles não só como inspirações e grandes exemplos para o Movimento Negro atual, mas também como grandes exemplos para qualquer que seja o movimento revolucionário. Entretanto, seu texto despertou essa dúvida. Grata

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    1. Oi Anonima.

      O tempo todo todos nós fazemos apropriações culturais porque a globalização nos traz coisas que nem sabemos de onde vem e pra nós acaba não tendo importância alguma, mas que ofende a cultura original. Os alargadores de orelha são um bom exemplo disso, assim como tatuagens. Acontece que algumas coisas que são apropriações de outras culturas se modificam tanto que perdem o valor original se tornando uma outra coisa, acaba acontecendo uma ressignificação, mas a cultura de origem sempre perde. A cultura africana e negra é sempre roubada e não fica com nada em troca. Os turbantes, que são a bola da vez, antes eram só lenços pra esconder piolho ( a maioria das mulheres negras que usam já devem ter ouvido isso) ou então sempre associavam as religiões de matriz africana. Nunca era uma coisa boa, até que o movimento negro fez um trabalhão pra tornar algo bonito e motivo de orgulho e então o capitalismo se apropriou e tornou produto. Acredito que alguns símbolos não devem ser usados por pessoas de culturas diferentes, acho ruim mesmo. Tu olha as estudantes de História da Africa e antropologia, todas tem uns uniformes com roupas e acessórios indígenas e africanos. Pra que isso? O que isso significa? Muitas vezes são pessoas bacanas que querem ajudar mas acabam objetificando as culturas que mantém contato, mostrando o quão são diferentes e se tornando pessoas exóticas. É um assunto complicado, cheio de problemas mas que tem crescido a importância de discussão. Acredito que uma camiseta do Dr. King seja uma coisa comum, afinal tem pra vender virou produto né? Mas cansei de ver pessoas brancas com camisetas do Malcoln X, mesmo sabendo o que ele pensava disso. E principalmente, vestir uma camiseta significa o que de verdade? O que você, pessoa que veste uma camisa dessas faz antirracismo? É possível continuar usando esses simbolos sem se preocupar com esses detalhes, ninguém vai te crucificar porque a cultura de massa diz que você esta certa, mas e tua consciência o que diz? Nós movimento negro estamos dizendo que nossos símbolos não são fruto do capital, não são objetos de moda para pessoas brancas e não são símbolos de vocês. São nossos símbolos e nós preferimos que só corpos negros exibam estes símbolos enquanto os símbolos de vocês forem enfiados por nossa goela abaixo. Enquanto a cultura normal for a eurocêntrica e vocês enfiarem nas nossas cabeças que cabelo bonito é liso e loiro, nós vamos dizer de volta " tirem as mãos dos nossos dreads" e vamos achar graça de vocês usando nossos símbolos.

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    2. Oi, sou a anônima de 3 de agosto de 2014.
      Aline, voltei pra agradecer e dizer que tenho aprendido mto aqui. Acho que entendi o que vc quer dizer. Tudo relacionado a cultura negra não me cabe usar, mesmo que eu "ache" que estou apoiando o movimento, na verdade, estou tomando posse, me apropriando... Estaria apenas roubando os símbolos de vcs, estaria fazendo o msm que as pessoas que eu tanto critico... Resolvi conversar com a minha filha e vamos dar as bonequinhas negras dela para meninas negras... Elas é que precisam dessa identificação! Minha filha entendeu melhor do que eu imaginava! Ela só não quis dar uma bonequinha negra de pano que é a preferida dela, então eu respeitei. Mas acho que, com o tempo, ela vai querer dar essa tbm... O racismo é tão arraiagado nos brancos, que somos racistas sem nem perceber. Tentando fazer "homenagens" acabamos nos apropriando de algo que não é nosso.
      Vou ensiná-la a não ser racista, mas sem fazer essa apropriação cultural que eu fazia antes! Obrigada pela paciência :) :)

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    3. Oi Anonima.

      Olhei os comentários anteriores e peço desculpas por não ter respondido o seu, passou sem querer. me desculpe. Olha, eu acredito na educação, e acredito que existem algumas coisas que podemos fazer para educar pensando na igualdade. Acredito que adultos devem manter distancia dos simbolos negros por todos os motivos que já citei. Agora na educação infantil é um pouco diferente, um pouco. Não sou a favor de desfiles infantis com roupas africanas e colocar turbantes e outros acessórios em crianças brancas, mas eu acredito que se todas as crianças tivesse acesso a informações sobre pessoas negras e sobre o continente africano, é possível que elas cresçam sim pelo menos conscientes de que temos um problema pra resolver. Com as crianças o problema é como nós adultos passamos a informação, sabe? É diferente sua filha ter bonecas de todas as cores, livrinhos com histórias diversas, conhecer os mitos dos orixás e gostar de personagens negros assim como gosta de outras coisas mais comuns ( coisas eurocêntricas), mas sabendo que estes elementos são de uma outra cultura, que vem de outro lugar e faz parte da construção de outras pessoas de uma maneira mais profunda do que na construção dela. Ensinar que existem várias culturas no mundo e algumas estão bem próximas dela é diferente de criar uma ansiedade na criança que vai fazer com que ela fique culturalmente confusa, como uma criança que diz "querer ser negra", assim como vi num video no youtube. É ótimo que sua filha branca desfaça preconceitos e conheça a cultura africana e afrobrasileira, só precisamos tomar cuidado de como passamos sabe? Aprender sobre outras culturas é bom, achar que ela é nossa e tem o mesmo significado pra nós do que para sua história e povo de origem, é apropriação cultural.

      E achei uma fofura por parte da sua filha doar as bonequinhas. Encontrar bonecas negras é muito difícil, a maioria das crianças negras nunca terão essa identificação, e é claro que para as crianças negras é mais importante, mas não significa que pra sua filha não seja importante também. São significados diferentes e você mãe, terá que dar o tom e parece estar preparada pra isso.


      Muito obrigada por ter retornado viu?

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  16. Oi, Aline,

    primeiramente, sou branca. É desse lugar que falo, para que não haja dúvidas. Nesse sentido, claramente não passei pelo que vc pode ter passado na vida, ou pelo que todo o movimento negro pode ter passado. Ainda assim, me arrisco a refletir sobre o seu texto e sobre a sua lógica. Sinceramente, não enxergo a aproximação do branco à cultura negra como algo ruim, muito pelo contrário. Quando você se aproxima de algo, é porque se identifica, porque estima, porque quer bem. É um gesto de reverência e admiração: é uma homenagem! O que poderia haver de mal nisso? É claro que, conforme você mesma disse, usar um cabelo estilo black power não é ser negro. Ter cabelo encaracolado e armado não é ser negro. Cultuar determinados orixás não é ser negro. Mas vivemos em uma sociedade que, graças a Deus, ainda nos dá liberdade para observar o outro, aprender com ele, admirá-lo e, porque não, imitá-lo! Que mal há nisso? Não entendo que ninguém que esteja incorporando traços da cultura/identidade negra em si mesmo para se passar por negro, ou para se sobrepor ao negro. É algo espontâneo, fruto da liberdade, da admiração. Entendo que o negro o fez e faz em relação ao branco muitas vezes, quando alisa o cabelo, quando não quer pegar sol, quando faz plástica no nariz... Claro que muitos o fazem por uma busca de aceitação, por uma imposição cultural... sim... e essa é muito mais forte. Mas de qualquer forma, sejamos todos livres então! Para imitar, copiar, homenagear quem a gente queira, não importa se branco, se negro... sejamos livres! Para que possamos descobrir que o quer nos define é muito mais do que como deixamos o cabelo, ou que religião seguimos... o que nos define é como eu interajo comigo mesmo, com o outro e com o mundo! Independentemente de rótulos!

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  17. apropriar, a palavra certa.

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  18. Oi Aline!
    Muito obrigada pelo seu texto.
    Estou procurando conhecimento e tirando algumas dúvidas. Tenho lido sobre o movimento feminista na atualidade e sobre a luta negra e suas dificuldades. Sou branca e aprendi a reconhecer meus privilégios. Tenho dúvidas sobre algumas coisas, talvez você possa me ajudar. Se puder, fico muito agradecida.
    Desde pequena gosto das pessoas pretas, negras, e de elementos da cultura africana. A agregação matrilinear intuitiva da família negra sempre chamou minha atenção. Tenho duas batas feitas de capulana africana, por uma moça carioca, Tenka Dara. Gosto de usá-las da mesma forma que gosto de outros elementos, de decoração, música, culinária, africanos. Quando visto as batas, quando olho para as gravuras na minha casa, quando como comidas de origem africana, sei que não são elementos da minha cultura, que pertencem a um outro povo, que eu admiro e respeito, e o faço com muita gratidão por poder conhecer coisas tão lindas, por poder usufruir delas, sabendo que há muito sofrimento envolvido no modo como esses elementos culturais chegaram a mim.
    Então, Aline, eu sinto carinho pelas pessoas negras, pela cultura negra. Gosto de vestir as capulanas, mas confesso que nunca pensei que isso pudesse ser um ato de desrespeito à luta negra. Vestir capulana, nesse meu contexto, é uma apropriação?
    Muito obrigada!

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  19. Querida Aline,
    O que estava faltando era ler melhor, ou saber interpretar texto. Reli o texto e a minha resposta está em "Deixar de ser racista minha flor, não é negar sua branquitude e se travestir de negra."
    Sim, usar batas de capulana é apropriação. :)
    Argumentei horrores com você trazendo toda uma questão afetiva porque provavelmente já sabia, mas não queria admitir.
    Acho que é uma demonstração de afeto muito maior eu não usá-las mais. Será que seria uma boa ideia procurar irmãs negras que gostem delas e as queiram? Num contexto de reconhecer que é algo da identidade da minha irmã, que ela deve, merece, precisa ser empoderada? Tenho receio de ser mal interpretada, que pensem que é uma sinhá dando roupa velha para a preta, e não é nada disso.
    Mais uma vez, obrigada, Aline, por me ensinar. De uma forma muito clara e muito gentil.

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  20. Eu queria lhe contar o meu caso. Pra começar sou branco e homem. Moro na Espanha e o maximo de descriminação que cheguei a sofrer foi por ser latino. O caso é que eu estou numa escola de percussão fundada por um grupo de batuque chamado "La Torzida".
    Esse grupo se formou lá pelos anos 70-80 do zero a partir do momento que o fundador escutou música brasileira (samba), ficou curioso e quis reproduzir aqueles sons dos intrumentos que escutava daquele CD.
    É um grupo inteiramente composto por espanhois e eu acho muito bonito o que eles fazem: tocam musicas de Olodum, do Ilê Ayê, etc, porque admiram muito e gostam. Cantam em português com o sotaque deles espanhol que fica bem engraçado, mas são apaixonados pelo que fazem. E conhecem toda a historia do movimento Olodum, etc. Não por questão de modinha (porque de fato, montar um grupo de batuque assim naquela época era quase impossivel porque apenas existia informação sobre isso aqui).
    E isso é o que acho bonito! Não foi um brasileiro que veio aquí pra mostrar e expandir a cultura dele. Não. Eles mesmos tiveram essa iniciativa. São apaixonados pela cultura brasileira (o local é cheio de bandeiras do Brasil e adesivos do Olodum. De fato acho que conhecem mais a cultura brasileira que eu) e se orgulham de fazer o que fazem. E pra mim, não pelo fato de ser uma música de origem negro (porque sou branco) mas pelo de ser uma música brasileira e pelo fato de eu ser brasileiro e ver que esse povo canta uma musica do meu país que eu vibro de alegria. Acho uma homenagem incrível! Não fico com raiva nem ofendido. Faz um mês que teve a festa de 30 anos da Torzida e cara, quando eles cantaram Requebra, Mel Mulher e Pérola Negra (que tal vez você não goste desta última por ser de Daniela Mercury e não gostar da apropiação cultural que ela faz, mesmo que seja uma homenagem ao Ilê Ayê) eu chorei de emoção. Me senti muito elogiado pelo respeito que eles tem pela cultura do meu país. Não porque seja um país europeu. Porque sentiria o mesmo entusiasmo se gente de qualquer país conhecesse minha cultura.
    Então acho que a apropiação cultural é uma coisa a se julgar por intenções. Pra começar, num mundo globalizado as culturas se misturam, se absorvem e se transformam. Sim, é verdade que EUA y Europa domina o que é a tendencia a seguir no estilo de vida cotidiano. Mas as culturas mais discriminadas também acabam participando do dia a dia. E isso não é ruim! Porque ao final, que a capoeira, a samba e outras aspectos de origem negro se convirtam em patrimonio cultural de um país é um passo à frente pela normalização da diversidade cultural. Tanto o brasileiro quanto um extrangeiro se fascinam pelo que tem o Brasil de mais rico: a diversidade. Que uma roda de capoeira só tenha brancos não quer dizer que a capoeira perca suas origens. Todo jogador de capoeira sabe a origem dela. Inclusive no extrangeiro. Pois conheço gente que faz capoeira aqui na Espanha.
    Que exista a liberdade de usar símbolos de outra cultura não quer dizer que essa cultura se difumine da sociedade. A final, os negros continuam tendo sua luta. Com o apoio dos brancos não racistas (achei aquí sim importante o fato de os negros serem protagonistas da sua luta).
    E sobre o caso da Claudia Leitte. Essa sim achei ousada e incorreta e acho que o Carlinhos Brown não tem noção das coisas por apoiar uma campanha assim (o caso de ele ficar nú representando um "índio" também achei podre). Porque a intenção é puro marketing. E o caso da Torzida acho totalmente o contrario: super positivo (também porque eles não ganham nada com isso. Só por amor pela arte mesmo).
    Toco o timbal, e cada vez que volto pra casa de ensaio com a mão toda inflamada de tocar e cheia de calos e feridas, morro de alegria. E vou continuar assim, porque não acho acertada a atitude do "o dos negros só para os negros". Tem que ser tudo misturado mesmo.

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    1. yurifoi, você tocou em pontos importantes e parece que entendeu a diferença de apropriação cultural e homenagem. É claro que é sempre bom refletir que tudo que um estrangeiro reproduz de uma cultura, é sua leitura sobre ela, aí é que podem surgir os equívocos ou uma bela homenagem. Morei no exterior, Viena, por 3 anos e as experiencias que tive com gringos reproduzindo expressões da cultura da brasileira foram terríveis. Hoje entendo que foram nossas falhas politicas que permitiram aquelas leituras e reproduções preconceituosas e que aos poucos quando melhoramos a consciência aqui, melhora também para quem esta em outro país. Nosso país tem muitas coisas boas e é bem bonito perceber outros povos reconhecendo estas coisas e também abrindo espaço para que os brasileiros falem por si. Que venham novos ventos pra nós e pra cultura em geral. Abraço.

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    2. Obrigado por responder Aline. Na verdade meu comentario era mais largo mas tinha um limite de caracteres.
      Seu artículo é muito bom. Vou recomendar ele nas redes.

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  21. Adorei ver a forma como você Aline, usou o conceito de cosplay, para colocar algumas questões das transições dos brancos brasileiros em sua busca de identidade.
    É o famoso afeto que mata, ou a síndrome de Laurence das
    Arábias, que para português-pt chamaria de síndrome "Vinícius de Morais", que num amor tão louco esmaga e impede que a cultura de quem dizem amar, se manifeste através da voz dos próprios oprimidos. Tornam tudo bossa nova, pasteurisam e eliminam a dor do outro, o tornando invisível, que fica só na história, como aquele negro-negra que morreu bêbado-a...Cês sabem né não tinha estudos?Ah! Mas tinha uma criatividade! Mal de berço.
    Nas escolas de samba são no mínimo os tesoureiros, nos terreiros os ogans que organizam tudo, o cosplay brasileiro já vem embutido em seu DNA a gana de mandar em preto. Melhor ainda se puder se passar por ele.
    Com a devida licença, como já vi que você escreveu permitindo a reprodução em algum lugar de seu blog, reproduzirei com o maior prazer este texto na Rede Radio Mamaterra, através de nosso blog Mamapress. Tem uma garotada negra dos 8 aos 80 anos perguntando sobre este assunto e tem muita gente confusa na hora de desenrolar este novelo do racismo dos "imitões". Me lembrei de meu falecido amigo Oliveira Oliveira, que em 77 já falava que nos reeducando, iríamos um dia educar o branco. Já na época, como agora, fui cético quanto ao branco como um todo se reeducar. Por isso gosto de sua linha de fortalecer o nosso povo negro. Bom como faz, pois o faz com carinho. Descascar a pele branca que carregamos em nossas relações cordiais, é um processo que nos custa muito caro, (oportunidade de empregos, espaço nas rodas sociais etc.) mas digo, é um preço que vale a pena pagar, pois é uma sensação muito boa ser dono-a de si mesmo-a. Abraços

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